Risco de morte de motociclistas em cruzamentos com Faixa Azul é mais que o dobro em SP, aponta estudo

  • 30/01/2026
(Foto: Reprodução)
Risco de morte de motociclistas em cruzamentos com Faixa Azul é mais que o dobro em SP, aponta estudo Um novo estudo aponta que o risco de motociclistas morrerem em cruzamentos de vias com Faixa Azul, faixa exclusiva para motos, é mais que o dobro do registrado em cruzamentos sem esse tipo de sinalização na cidade de São Paulo. Segundo os pesquisadores, o principal fator associado ao aumento da letalidade é o excesso de velocidade (leia mais abaixo). Implantada em janeiro de 2022 com a promessa de reduzir mortes no trânsito, a Faixa Azul é uma sinalização viária exclusiva para motos que ocupa pouco mais de um metro de largura ao longo de mais de 230 quilômetros de vias da capital paulista. O projeto completou quatro anos no último domingo (25). A política, no entanto, não tem se mostrado eficaz do ponto de vista da segurança viária, de acordo com os dados analisados. “A política da Faixa Azul pode ser muitas coisas, pode ser uma política de pertencimento, de organizar o trânsito, mas ela, evidentemente, da forma que foi implementada, ela não é uma política de segurança viária”, afirma Mateus Humberto, professor da USP e coordenador do estudo. Faixa azul em SP Edson Lopes Jr./SECOM A pesquisa foi conduzida por especialistas da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Ceará (UFC) e por organizações do terceiro setor ligadas à saúde pública. Para medir os efeitos da Faixa Azul, os pesquisadores adotaram uma metodologia semelhante à usada em testes de novos medicamentos. Na prática, foram comparadas vias com Faixa Azul a outras sem a sinalização, mas com características semelhantes — como número de pistas, volume de tráfego e perfil viário. A Avenida 23 de Maio, por exemplo, foi comparada à Radial Leste. O objetivo era avaliar se, após a implantação da Faixa Azul, houve melhora diferente entre os dois grupos. Segundo os pesquisadores, em vários casos, a diferença foi nula — e, em outros, os indicadores de segurança pioraram. A conclusão difere de um estudo da Companhia de Engenharia de Tráfiego (CET), de 2025, que havia apontado que a implantação da faixa azul em São Paulo resultou em uma redução de 47,2% nas mortes de motociclistas nos trechos onde a medida foi aplicada. Cruzamentos e excesso de velocidade O novo estudo também analisou onde os acidentes acontecem ao longo das vias: no meio da quadra ou em um raio de até 10 metros dos cruzamentos. Foi justamente nesses pontos que apareceu o dado mais preocupante: o número de acidentes fatais mais do que dobra em ruas com Faixa Azul. De acordo com os especialistas, a velocidade elevada no trecho entre cruzamentos faz com que o motociclista chegue ao cruzamento — que já é uma área naturalmente mais conflituosa — em condições muito mais perigosas. “Esse excesso de velocidade que acontece no meio da quadra acaba desembocando no cruzamento. O motociclista chega numa velocidade muito maior, e isso gera uma probabilidade maior de ocorrência de sinistros”, explica Ezequiel Dantas, diretor de dados da Vital Strategies. A velocidade foi analisada a partir de imagens captadas por drones. O levantamento mostra que, em vias com limite de 50 km/h e com Faixa Azul, 96% dos motociclistas trafegam acima da velocidade permitida. Em vias sem Faixa Azul, esse percentual também é alto, mas menor: 71%. “Nas vias com Faixa Azul, o excesso de velocidade é muito mais drástico. Se a gente olha para o patamar de 50 km por hora, praticamente todo mundo está excedendo o limite”, afirma Dantas. Motociclistas que circulam diariamente pela cidade relatam que a dinâmica da Faixa Azul incentiva comportamentos de risco. “Ela é boa por um lado, ajuda na fluidez, mas muitos motociclistas não respeitam o limite. Quem quer andar dentro da velocidade da via acaba sendo empurrado, buzinado, colocado em risco”, diz Paulo Dias, motociclista operacional. Mortes voltam a subir Segundo o estudo, 475 motociclistas morreram no trânsito da capital no ano passado — alta de quase 15% em relação a 2022, quando as Faixas Azuis começaram a ser implementadas. Em comparação com 2024, houve uma queda de pouco mais de 1%. O menor número de mortes foi registrado em 2023, com 402 óbitos. Para quem depende da moto para trabalhar, a preocupação é diária. “A faixa é bem-vinda, mas precisa de muita responsabilidade. E falta fiscalização, esse é o X da questão”, afirma Paulo Dias. Os pesquisadores defendem que a política seja revista e que medidas de controle de velocidade e fiscalização sejam reforçadas, especialmente nos cruzamentos, para reduzir o número de mortes no trânsito da capital. Em nota, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) lamentou que o estudo não tenha comparado as mortes de motociclistas antes e depois da implementação da Faixa Azul nas vias onde a sinalização foi instalada. Segundo a administração municipal, nesses trechos, o número de óbitos caiu de 29 para 22 após a adoção da medida. Ainda de acordo com a prefeitura, nos últimos quatro anos, a velocidade média dos motociclistas que circulam pela Faixa Azul foi de pouco mais de 49 quilômetros por hora. O plano da gestão municipal é instalar 400 quilômetros de Faixa Azul em toda a cidade até 2028.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/01/30/risco-de-morte-de-motociclistas-em-cruzamentos-com-faixa-azul-e-mais-que-o-dobro-em-sp-aponta-estudo.ghtml


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