Prefeitura de SP autoriza casa de shows ao lado de hospital de cuidados paliativos na Zona Sul; moradores tentam barrar
12/02/2026
(Foto: Reprodução) Terreno onde está sendo montada a estrutura do espaço de eventos Varanda Estaiada, na Zona Sul de São Paulo
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Uma autorização para eventos com público de quase 5 mil pessoas em uma nova casa de shows no Brooklin, na Zona Sul de São Paulo, causou indignação na vizinhança. Isso porque o empreendimento fica a poucos metros de um hospital de reabilitação e cuidados paliativos, que teme impactos na rotina e prejuízo aos pacientes.
O espaço, chamado Varanda Estaiada, prevê inauguração neste sábado (14) com uma festa de música eletrônica. A operação foi autorizada no final de janeiro pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento. O alvará tem prazo de seis meses, prorrogáveis por mais seis.
Moradores ouvidos pelo g1 demonstraram especial preocupação com a falta de isolamento acústico no espaço. "É tipo uma tenda ao ar livre. Imagina como vai ser o som para um público desse tamanho? Algumas vezes, quando eles faziam festa do outro lado do Rio Pinheiros, eu conseguia ouvir daqui", relata Leonardo Alves, fazendo referência ao endereço anterior do empreendimento, no Real Parque, a cerca de 1 quilômetro.
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Com entrada pela Avenida Crucri Zaidan, a nova casa de shows é vizinha de fundo com o hospital Premier Brooklin, atualmente com 95 pacientes em recuperação pós-cirúrgica ou recebendo cuidados paliativos em seus momentos finais. A gerente da unidade, Oneide Rodrigues, disse que ficou sabendo do empreendimento há menos de um mês - inicialmente, a movimentação de caminhões e operários a levou a pensar que um shopping seria construído no local.
Segundo Oneide, não houve tempo nem sequer para a instalação de janelas antirruído nos quartos do hospital. Ela diz que os responsáveis pela Varanda Estaiada se comprometeram a fazer medições de som e instalar barreiras acústicas, mas que não acredita que essas medidas serão suficientes.
"Por mais que a gente [o hospital] esteja de costas para o palco e que tenham falado de instalar várias camadas de barreira acústica, é um evento a céu aberto, então isso nos preocupa muito. É uma questão de saúde para os nossos pacientes", disse a gerente do hospital, aflita com a possibilidade de os eventos invadirem a madrugada.
A vizinhança já conseguiu coletar 1.341 nomes em um abaixo-assinado virtual contra o projeto e reuniu apoio de vereadores de diferentes espectros políticos, como Nabil Bonduki (PT), Marina Bragante (Rede) e Zoe Martínez (PL). Os parlamentares participaram de reunião com a secretaria na terça-feira (10) e enviaram ofícios à gestão Ricardo Nunes (MDB) pedindo que reavalie o alvará.
Em seu pedido, Bonduki cita uma norma que estabelece limites para a emissão de ruídos em áreas próximas a hospitais e alega que o empreendimento não pode ser classificado como "evento temporário". Essa caracterização simplifica o processo de licenciamento e desobriga a empresa de atender algumas exigências legais para empreendimentos permanentes, como a apresentação de estudo de impacto de vizinhança.
Terreno da Varanda Estaiada visto da janela do Hospital Premier, de cuidados paliativos
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A advogada Agda Mendes, presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) da região, também contesta o enquadramento nesta categoria, devido ao tamanho da estrutura que está sendo construída. "Eles estão movimentando terra e pavimentando a área, fazendo toda a parte hidráulica e elétrica. Eles dizem que não, mas estão executando uma obra", argumenta.
Provocado por moradores, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) cobrou que a prefeitura e a Polícia Militar monitorem os eventos realizados no local de modo a preservar os direitos à tranquilidade e de circulação na vizinhança.
Em posicionamento enviado ao g1, o Varanda Estaiada afirmou que todas as suas atividades são "planejadas de forma responsável, com atenção aos impactos urbanos e em conformidade com as diretrizes estabelecidas pelas autoridades, buscando sempre uma convivência equilibrada com a região" (leia a íntegra mais abaixo).
Os responsáveis pelo empreendimento afirmam que mantêm diálogo com a administração do hospital desde o ano passado e investiram em métodos para minimizar a geração de ruído - entre eles uma parede acústica de contêineres posicionada atrás dos amplificadores para evitar a propagação do som no sentido da unidade de saúde. Além disso, dizem que medições sonoras serão realizadas antes da inauguração para que o evento não extrapole nenhum limite estabelecido por lei.
Ainda segundo a empresa, o Varanda Estaiada não é uma casa de shows permanente, mas um espaço de eventos itinerante que já esteve em três endereços da capital paulista nos últimos seis anos. O espaço, porém, já anunciou ao menos três apresentações musicais previstas para os próximos meses.
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Por meio de nota, a secretaria disse que o alvará foi concedido "após análise técnica e o cumprimento integral das exigências previstas no artigo 24 do Decreto nº 49.969/2008, que regulamenta a realização de eventos públicos e temporários na cidade".
Ainda segundo a pasta, o empreendimento apresentou documentação técnica e de segurança, além de declaração de conformidade com os limites de emissão de ruído estabelecidos pela Lei de Zoneamento.
Sobre a reunião com vereadores, movimentos da sociedade civil e representantes do Hospital Premier, a prefeitura diz ter solicitado o envio de ofícios à subprefeitura local para subsidiar eventual pedido de reavaliação do documento.
O que diz a Varanda Estaiada
"Diante de recentes questionamentos veiculados em redes sociais, o Varanda Estaiada considera fundamental prestar esclarecimentos objetivos e transparentes à comunidade e aos veículos de comunicação.
O Varanda Estaiada informa que possui alvará expedido pela Prefeitura e todas as autorizações necessárias para o exercício de suas atividades, atuando integralmente dentro das normas municipais, técnicas e legais aplicáveis. A operação segue os parâmetros definidos pelos órgãos competentes, incluindo exigências relacionadas à segurança, capacidade, mobilidade e uso do espaço urbano.
O Varanda Estaiada compreende que a realização de eventos pode gerar percepções distintas no entorno e respeita as manifestações da vizinhança. Todas as atividades são planejadas de forma responsável, com atenção aos impactos urbanos e em conformidade com as diretrizes estabelecidas pelas autoridades, buscando sempre uma convivência equilibrada com a região.
Esclarecemos ainda que algumas informações divulgadas nas redes sociais não refletem a realidade da operação nem os parâmetros legais sob os quais o espaço atua. Por isso, reforçamos a importância de que o debate público seja conduzido com base em informações corretas, diálogo e responsabilidade.
Reiteramos nossa total disposição para esclarecer dúvidas adicionais, atender questionamentos específicos e contribuir com pautas que permitam o aprofundamento das informações de forma transparente.
Seguimos comprometidos com a legalidade, o respeito à comunidade e a construção de uma convivência urbana harmônica."