Peixe invasor da Ásia, Donzela-real se adapta ao litoral brasileiro e preocupa especialistas
05/02/2026
(Foto: Reprodução) Peixe invasor da Ásia, Donzela-real se adapta ao litoral brasileiro e preocupa
O nome comum é sugestivo: Donzela-real (Neopomacentrus cyanomos). Nativa do Indo-Pacífico, essa espécie vive em corais e foi descrita pela primeira vez em 1856 pelo especialista holandês Pieter Bleeker. No Brasil, porém, a donzela-real foi documentada apenas em 2023. O que em termos de ciência é algo recente, já se configura como mais um caso preocupante de espécie exótica invadindo o Atlântico Sul.
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Os primeiros registros no país foram confirmados no litoral paulista, em ilhas costeiras como a Ilha da Queimada Grande, o Parque Estadual Marinho da Laje de Santos e a Estação Ecológica Tupinambás, no Arquipélago de Alcatrazes.
Os pesquisadores deduzem que a espécie tenha chegado ao Brasil transportada em navios provenientes do Caribe, onde a donzela-real já estava estabelecida como invasora desde 2014.
Donzela-Real (Neopomacentrus cyanomos)
michaelfalk6754 / iNaturalist
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A rota da invasão
Mas como esses peixes chegaram aqui? A principal hipótese é a chamada água de lastro — água captada do mar e armazenada em tanques internos das embarcações para garantir estabilidade, equilíbrio e segurança operacional, especialmente quando estão com pouca carga.
Embora vital para a navegação, o descarte dessa água geralmente é feito nos portos de destino. O resultado é a transferência de microrganismos e espécies exóticas para o ambiente local, causando desequilíbrios biológicos e riscos sanitários.
Donzela-Real (Neopomacentrus cyanomos)
ajhg / iNaturalist
O biólogo e mergulhador Eric Comin observou um cardume de donzela-real no litoral paulista no fim de janeiro de 2026.
"Eu fiz um mergulho, pelo fato de ser especialista, eu bati o olho e sabia que era uma espécie invasora e fiz o registro. Eles estão sim se reproduzindo com sucesso, porém é preciso que haja um monitoramento contínuo para ver se a espécie na nossa região está se estabelecendo com sucesso", explica Comin.
Quem é a Donzela-real
A área de distribuição original da donzela-real é vasta: no Oceano Índico, vai desde a África Oriental, Mar Vermelho e Golfo Pérsico até o Oceano Pacífico, incluindo Filipinas, Indonésia, Malásia, sul do Japão, norte da Austrália e Nova Caledônia.
Donzela-Real (Neopomacentrus cyanomos)
bdbishop / iNaturalist
O Neopomacentrus cyanomos alimenta-se principalmente de zooplâncton (composto de animais que flutuam ou nadam fracamente, dependendo de correntes para se deslocar a grandes distâncias). Os indivíduos medem, em média, 10 centímetros.
A espécie apresenta corpo alongado com coloração que varia do azul-escuro para o preto, com uma mancha branca próxima da barbatana dorsal. Os jovens apresentam barbatanas amarelas que escurecem conforme chegam à fase adulta. No Brasil, os indivíduos formaram cardumes de 5 a 30 integrantes em áreas protegidas e locais abrigados.
Riscos ao ecossistema
Donzela-Real (Neopomacentrus cyanomos)
missjosiela / iNaturalist
Pesquisadores alertam que a densidade populacional pode variar, já que a espécie tem preferência por estruturas artificiais, como plataformas de petróleo. No Golfo do México, onde a donzela-real também chegou, ela forma cardumes com alta densidade.
"Na desova eles estabelecem um comportamento completamente territorial e vão defender o local de desova de uma forma feroz contra quaisquer outras espécies. Consequentemente eles brigam pelo habitat com as espécies nativas. Então eles têm competição por espaço, por alimento. É uma espécie muito territorial e agressiva", comenta o biólogo Eric Comin.
Os biólogos têm feito censos quantitativos e qualitativos para avaliar a situação. Como a descoberta é recente, os especialistas notaram por enquanto pequenos cardumes. Os impactos exatos ainda estão sendo avaliados, mas o principal problema é a competição por recursos.
Para fazer um monitoramento estratégico, os pesquisadores contam com modelos que consideram as correntes oceânicas e a tolerância térmica para prever quais áreas podem ser invadidas. A vigilância inclui a observação em estruturas artificiais e a ciência-cidadã, com relatos de mergulhadores para mapear a expansão da donzela-real.
"Na verdade é importante ter um levantamento da ictiofauna, conjunto de espécies de peixes de determinada região, realizar esses programas de monitoramento de biodiversidade, principalmente unidades de conservação para avaliar o impacto dessas invasões sobre as espécies nativas para ter uma medida de controle de isso tudo", argumenta Eric.
A donzela-real é encontrada entre 5 e 30 metros de profundidade. Ao se estabelecer em grande densidade em recifes de coral, ela pode alterar a dinâmica populacional local.
Embora alguns estudos no Golfo do México tenham sugerido, num primeiro momento, que o impacto imediato sobre peixes nativos planctívoros (que se alimentam de plâncton) poderia ser limitado, o alto potencial de invasão e a rápida colonização de novas áreas tornam esta espécie uma ameaça potencial para os recifes brasileiros.
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