Pedagogo em situação de rua defende participação ativa na assistência social em evento nacional: 'Não queremos apenas sobreviver'

  • 26/01/2026
(Foto: Reprodução)
Pedagogo em situação de rua de Bauru defende participação ativa na assistência social Formado em pedagogia, músico, amante de livros e com um currículo que contrasta com a realidade das ruas, Rafael Andrade Campos, de 35 anos, foi o primeiro morador em situação de rua de Bauru (SP) a representar a cidade na Conferência Nacional de Assistência Social, realizada em Brasília (DF), em dezembro de 2025. Além de representar o município, Rafael foi delegado do estado de São Paulo no evento, que reúne gestores, profissionais e usuários do sistema para discutir políticas públicas voltadas a pessoas em situação de vulnerabilidade. 📲 Participe do canal do g1 Bauru e Marília no WhatsApp Rafael, morador em situação de rua de Bauru (SP), representou a cidade nas conferências nacional e estadual de assistência social Arquivo pessoal Antes da etapa nacional, ele já havia sido escolhido para representar Bauru na conferência estadual, realizada em Jaú (SP). Nascido e criado em Bauru, Rafael defende uma mudança na lógica do assistencialismo. Para ele, é preciso deixar de tratar as pessoas em situação de rua como quem recebe ajuda "de cima para baixo" e passar a construir políticas públicas em nível de igualdade. "As pessoas em situação de rua não podem ser só receptoras de ajuda. A gente precisa ser ouvido, participar das decisões. Quando o especialista olha 'de cima para baixo', é uma coisa. Mas, quando está no mesmo nível, a conversa muda completamente", afirma em entrevista ao g1. Voz ativa nas decisões A principal proposta defendida por Rafael é a criação de um Fórum de Usuários, espaço onde pessoas atendidas pela assistência social possam opinar diretamente sobre os serviços oferecidos. Rafael, morador em situação de rua de Bauru (SP), representou a cidade nas conferências nacional e estadual de assistência social Arquivo pessoal A ideia é evitar desperdício de dinheiro público em ações que não resolvem os problemas reais de quem vive nas ruas. "Enquanto algumas pessoas discutiam colocar ar-condicionado em unidades de atendimento, a gente estava pedindo computadores. O que mais precisamos é acesso a informação para procurar emprego, estudar, resolver documentos. Ouvindo a gente, o dinheiro pode ser melhor aplicado", explica. "Não queremos só sobreviver. A gente quer participar, trabalhar, estudar e ser tratado como cidadão", completa. Da formação acadêmica à vulnerabilidade Rafael está em situação de rua há poucos meses, mas conta que já vivia em situação de vulnerabilidade há alguns anos. O início aconteceu durante a pandemia. "O que me levou até isso começou na época da Covid-19. Perdi meu pai. Depois, no ano passado, minha mãe desapareceu. Tudo isso mexeu muito comigo. Eu moro sozinho, não tenho pai nem mãe próximos, fiquei meio perdido e acabei entrando nessa situação de vulnerabilidade", relata. Rafael, morador de Bauru (SP), defente a voz ativa das pessoas em situação de vulnerabilidade em políticas públicas Arquivo pessoal Antes disso, Rafael já havia concluído a graduação em pedagogia em uma universidade particular de Bauru por meio de uma bolsa do Prouni, utilizando a nota do Enem. Além da faculdade, Rafael conta que sua trajetória sempre esteve ligada à área de humanas e comunicação. "Quando criança, toquei na Banda Municipal de Bauru por cinco anos. Depois, fiz um curso técnico no Senai de artes gráficas, voltado para comunicação visual. Sempre gostei muito de leitura e música", conta. Ao se encontrar em situação de rua, Rafael passou a ser atendido pelo albergue do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac). Foi ali que as assistentes sociais perceberam seu perfil e o incentivaram a participar das conferências. "Não foi um convite direto. Teve uma votação municipal e eu fui eleito. Depois, veio a estadual, outra votação, e eu passei também. Quando falaram que eu iria representar, pensei: 'Se estão me mandando, vou me esforçar e fazer direito'", lembra. A assistente social Jaqueline Fontanezzi, responsável pelo albergue, explica a escolha e a importância da representação de Rafael na conferência. "A necessidade da população em situação de rua precisa ser dita pela própria população em situação de rua. E o Rafael tem esse perfil. Não poderia ter pessoa melhor para representar esse público", afirma. Experiência em Brasília Na conferência nacional, o mais marcante para Rafael foi ver usuários participando junto a técnicos e gestores, justamente a integração que defende. "Eu achei muito importante, porque não eram só especialistas falando. Tinha gente que vive isso na prática. Quando ouvem a gente de verdade, tudo muda. Eu também conheci pessoas de vários estados, realidades muito diferentes, pessoas autistas, neurodivergentes, comunidades ribeirinhas que nem têm acesso básico. Foi uma troca enorme de experiências", conta. Para ele, estar em Brasília foi ao mesmo tempo um privilégio e uma responsabilidade. "Foi uma honra, mas também um compromisso. Eu pensei: 'Já que estou aqui, preciso fazer valer essa oportunidade e representar bem quem vive isso todo dia'". Morador de Bauru (SP) participou da Conferência Estadual de Assistência Social em Jaú (SP) Arquivo pessoal Entre os objetivos para o futuro, Rafael quer colocar em prática o Fórum de Usuários em Bauru e também reconstruir a própria vida. "Minha primeira meta é cumprir essa responsabilidade no município. Pessoalmente, estou focado em passar em um concurso público na área da educação", diz. Ele conta que, apesar do bom currículo, enfrenta preconceito ao tentar vagas em escolas particulares. "Quando mando currículo e veem que estou em situação de rua, muita gente pensa: 'Uma pessoa moradora de rua vai dar aula para meus filhos?'. Existe essa barreira. No concurso público, se eu passar na prova, não tem isso. É uma forma de quebrar o preconceito e recomeçar", finaliza. Veja mais notícias da região no g1 Bauru e Marília VÍDEOS: assista às reportagens da região

FONTE: https://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2026/01/26/pedagogo-em-situacao-de-rua-defende-participacao-ativa-na-assistencia-social-em-evento-nacional.ghtml


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