'Envelhecer': do prazer aos riscos, quais são os tabus do sexo na terceira idade

  • 06/02/2026
(Foto: Reprodução)
Envelhecer: especialista fala sobre os mitos em torno da sexualidade após os 60 anos Carmem Fregonesi está longe de aparentar ter 97 anos. Moradora de Ribeirão Preto (SP), mais do ter uma rotina autônoma, ela afasta preconceitos do sexo associados à terceira idade. "Eu me sinto como sou, mulher. Sempre tive prazer na minha vida, o prazer que eles falam. Agora, não tem esse negócio de ficar toda hora atrás disso. Não é isso só que faz a pessoa feliz", diz a aposentada, que tem um namorado quase 30 anos mais novo. Com o envelhecimento da população brasileira, questões como a atividade sexual passaram a despertar mais a atenção de especialistas, acompanhando uma maior frequência do sexo entre os mais velhos. Ao mesmo tempo em que há tabus a serem combatidos, existem conceitos equivocados e alertas de saúde em torno do assunto. Faça parte do canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp O tabu do sexo na perspectiva do prazer contribuiu para a perpetuação dessa crença coletiva de que a vida sexual se encerra na velhice. No entanto, as evidências científicas contradizem essa crença. Esta reportagem faz parte da série "Envelhecer", um especial do g1 sobre os desafios associados ao envelhecimento da população no mercado de trabalho, na sexualidade, na saúde pública e no acolhimento institucional. Carmem Fregonesi, de 97 anos, moradora de Ribeirão Preto (SP). Rodolfo Tiengo/g1 Mudanças biológicas e psicológicas Naturalmente, as mudanças hormonais e biológicas levam a uma menor procura pelo sexo na terceira idade. Nas mulheres, segundo a pesquisadora da USP, a queda dos estrogênios - os hormônios produzidos principalmente pelos ovários - após a menopausa não só reduz a receptividade a estímulos eróticos. Ela também causa alterações corporais que afetam a autoimagem, além de causar ressecamento e outras alterações na sensação de prazer genital. "A redução dos androgênios ao longo da vida da mulher pode reduzir o desejo sexual espontâneo e responsivo, bem como reduzir a força e frequência do orgasmo", acrescenta Lucia. Nos homens, a redução da testosterona pode levar à queda do desejo sexual e aumentar os riscos de disfunção erétil. "Está no imaginário coletivo que mulheres após os 60 anos não se importam com relações sexuais, enquanto os homens mantêm sua vida sexual ao longo de toda a vida. Porém, homens e mulheres vivenciam mudanças físicas, psicológicas e socioculturais com o avançar da idade, que influenciam negativamente na saúde sexual, modificando a dinâmica íntima e o bem-estar relacional." Lucia Alves Silva Lara, ginecologista e coordenadora da residência de Sexologia do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto. Murilo Corazza/g1 Mudança de comportamento Apesar dessas limitações todas, a atividade sexual cada vez mais faz parte da rotina das pessoas acima dos 60 anos. Apesar de não haver um estudo recente e abrangente sobre o tema no Brasil, especialistas e pesquisadores confirmam essa tendência. O geriatra Paulo de Oliveira Duarte, de Ribeirão Preto, estima que 50% dos pacientes, tanto homens, quanto mulheres, relatam manter relações sexuais depois dos 60, embora isso varie de acordo com fatores como estado civil e mobilidade. Nos homens, essa questão também é associada a uma maior procura por medicações contra a disfunção erétil. "A velhice é heterogênea, (...) mas o prazer sexual persiste após a idade reprodutiva, apesar desses tabus e preconceitos", diz Duarte. Em uma revisão teórica publicada em 2025 sobre os estudos relacionados sobre a sexualidade na velhice, os pesquisadores Iandra Mikaelly Gonçalves da Silva, da Universidade Federal da Bahia, e Raphael dos Santos Teixeira, do Instituto Paulista de Sexualidade, encontraram levantamentos que indicaram taxas variando entre 58% e 71% de pessoas confirmando a permanência do desejo sexual após os 60 anos. "Tenho a minha vida normal como qualquer outra, não tenho esse preconceito que estou velha. Graças a Deus sou feliz como se tivesse uma idade mais nova", afirma Carmem, de 97 anos. Parte da disposição para viver ela atribui à atividade física - participa de grupos de caminhada e de arremesso de peso - aos cuidados constantes com a saúde, incluindo visitas periódicas ao ginecologista, e ao carinho da família. "Eu sou feliz, porque eu tenho uma família. Eu tenho dois filhos, tenho meus netos, minhas irmãs, tudo uma maravilha comigo." 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Uma transformação importante, principalmente, para as mulheres, graças ao acesso ampliado a fontes de informação na internet e mídias sociais. "Gradualmente, a mulher 60+ tem se preocupado em prover satisfação sexual para si mesma, migrando de um padrão sexual tradicional de 'servir sexualmente o seu parceiro e ser responsável em promover a satisfação sexual dele', para a busca da satisfação sexual pessoal, por ser o sexo importante para ela", diz. Para homens ou mulheres, segundo ela, essa mudança ajuda a combater o mito de que uma pessoa deixa de sentir prazer sexual porque envelhece. "Embora o avançar da idade esteja associado a menor frequência sexual por razões biológicas, psíquicas e relacionais, a capacidade de sentir prazer sexual permanece preservada ao longo da vida. Isso enfatiza a importância da abordagem da função sexual da pessoa em todas as faixas etárias", analisa. Sexualidade na terceira idade é cercada de mitos Sebastien Bozon/AFP Mais assíduos e menos cuidadosos Uma maior frequência sexual entre os 60+ também veio acompanhada por um alerta de saúde. Além de menos precavidos quanto ao uso de preservativos, os idosos têm pouco interesse em exames para diagnosticar infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Em 2021, um boletim divulgado pelo Ministério da Saúde mostrou um aumento de 129% nos registros de HIV em indivíduos com mais de 50 anos, quando comparados aos obtidos duas décadas antes. No levantamento mais recente, tinham sido 5,4 mil notificações contra 2,3 mil nessa população. No mesmo levantamento, foi possível apontar que, no estado de São Paulo, 40% das pessoas com 50 anos ou mais usaram preservativo na última relação sexual e 20% nunca haviam se testado pela rede pública para ver se tinham Aids. Na Pesquisa Nacional de Saúde, os dados foram ainda mais alarmantes: 80% das pessoas acima dos 60 anos informaram que não haviam usado preservativo. O motivo principal alegado para não se usar a camisinha foi a confiança no parceiro ou na parceira, com mais de 84% das respostas. Quase 10%, por outro lado, disseram que não gostam de usar preservativo. Maior incidência de ISTs Segundo Duarte, esse comportamento de risco tem aumentado as chances de infecção não só do HIV, mas de outras ISTs. Dados do Ministério da Saúde confirmam uma tendência de aumento de casos de sífilis adquirida, em adultos transmitida principalmente por meio do contato sexual com mais de 128 mil casos registrados entre 2010 e 2024. Em 2010, o total de notificações registradas no país era de apenas 166 em pessoas acima dos 60 anos. Em 2023, quando chegou ao pico da série histórica, foram 21,6 mil notificações. A mesma tendência é observada no estado de São Paulo, que saltou de 33 em 2010 para 5,8 mil em 2023. A média anual de diagnósticos de Aids nessa mesma faixa etária também subiu ao longo do tempo. No final dos anos 1990, ficava na faixa dos 600 casos em todo o país, mas subiu para a faixa de 1 mil casos no final da primeira década dos anos 2000 e depois de 2010 passou a oscilar entre 1,1 mil e 1,4 mil casos por ano. Os dados são do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis, do Ministério da Saúde. Para a coordenadora da residência de Sexologia do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da USP de Ribeirão Preto, ainda não existem elementos suficientes para explicar esse comportamento de risco, mas ela garante que ele não é exclusivo dos mais velhos. "As pessoas idosas de hoje cresceram em um contexto limitado de acesso à informação sobre sexualidade e temas sexuais em geral, o que pode contribuir para menor percepção de risco em relação ao sexo desprotegido. No entanto, mesmo entre populações mais jovens e bem informadas, o uso de métodos de barreira para prevenção de ISTs permanece baixo." Lucia Alves Silva Lara, ginecologista e coordenadora da residência de Sexologia do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto. Murilo Corazza/g1 Ainda assim, ela alerta sobre a importância de se orientar as pessoas dessa faixa etária a buscarem uma vida sexual sadia e segura. "A idade não é uma barreira para a vivência do prazer sexual seja pelo autoerotismo ou pela troca com uma parceria. Quando envolve uma parceria, o risco de contrair infecção sexualmente transmissível (IST) é iminente. Dessa forma, utilizar a barreira de proteção é fundamental, tendo à disposição, o preservativo de uso externo para o homem e de uso interno para a mulher." Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região

FONTE: https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2026/02/06/envelhecer-do-prazer-aos-riscos-quais-sao-os-tabus-do-sexo-na-terceira-idade.ghtml


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