Entre grades: uso de gradis para revista e segurança de foliões no carnaval de SP aumenta risco e precisa ser revisto, dizem especialistas

  • 13/02/2026
(Foto: Reprodução)
Superlotação em bloco com Calvin Harris em SP provoca tumulto e foliões passam mal Os episódios de superlotação e tumulto registrados durante o pré-carnaval na Rua da Consolação, no último domingo (8), reacenderam o debate sobre o modelo adotado para grandes blocos de rua em São Paulo. Cercados por gradis, tapumes e corredores estreitos, foliões relataram sensação de sufoco e dificuldade para deixar o local, cenário que já se repetiu em outros endereços da cidade, como Avenida 23 de Maio, Avenida Tiradentes e entorno do Parque do Ibirapuera. A capital paulista utiliza gradis de forma contínua ao longo de trechos dos desfiles, criando corredores fechados para circulação e revista do público. Uma nota técnica elaborada pela Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), obtida pelo g1, afirma que o uso de gradis em eventos de massa pode ser essencial para a preservação da vida e da ordem pública, desde que siga critérios técnicos rigorosos de planejamento, instalação e operação. Para especialistas ouvidos pelo g1, o confinamento de grandes multidões em espaços estreitos, sem rotas laterais de escape, cria um cenário de risco mesmo sem violência. Eles também criticam a lógica de gestão baseada na contenção dos fluxos e o uso de gradis metálicos, considerados mais rígidos e perigosos do que os modelos plásticos. O modelo adotado em São Paulo para a organização do carnaval de rua também é mais restritivo do que o aplicado em outras capitais conhecidas por eventos de grande porte, como Recife, Rio, Salvador e Belo Horizonte, que usam gradis somente nas para controlar o comércio autorizado e impedir a entrada de recipientes de vidro nos principais polos da festa (leia mais abaixo). Tumulto em bloco com Calvin Harris em SP Estadão/g1 “O que a gente viu foi a limitação do espaço com tapume e com gradis amarrados entre si e sem saídas alternativas. Isso foi o grande diferencial errado nesse momento”, afirma a professora e pesquisadora de turismo urbano da Universidade de São Paulo (USP), Mariana Aldrigui. Segundo ela, densidades elevadas de público tornam o risco inevitável. “Seis pessoas por metro quadrado já é uma situação extremamente desconfortável. Se uma pessoa derrapa, a gente passa a ter pisoteamento”, explica. No domingo, o bloco Skol, com o DJ escocês Calvin Harris, e o cortejo do megabloco Acadêmicos do Baixo Augusta aconteceram no mesmo local, em horários muito próximos, contrariando as próprias regras da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Após os episódios, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) instaurou um inquérito preliminar para apurar a superlotação e recomendou ainda que a Prefeitura adote medidas de planejamento, controle e fiscalização no uso de áreas públicas durante o carnaval de 2026. Além dos gradis nos blocos da Consolação, o fato de a Praça Roosevelt, ao final do circuito, estar fechada com tapumes, prejudicou a dispersão dos foliões, que ficaram sem válvula de escape. Nesta quinta-feira (12), a Prefeitura reviu a medida e retirou os tapumes. Entre grades Cidades como Recife, Olinda, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador concentram o controle de acesso nas entradas dos circuitos ou na proteção pontual de áreas sensíveis. A nota técnica da PM diz que, em situações de alta densidade, a multidão passa a se comportar como um fluido, capaz de gerar ondas de pressão e esmagamentos. Nessas condições, os gradis funcionam como equipamentos de proteção coletiva, ajudando a organizar o fluxo e reduzir a pressão sobre as pessoas. A própria nota, no entanto, alerta que as estruturas só cumprem essa função quando não bloqueiam rotas de fuga, não formam ângulos fechados e não são amarradas com cadeados. Barreiras mal empregadas, segundo o texto, podem se transformar em armadilhas letais. Os gradis que bloqueiam o acesso ao espaço reformado do 'Novo Vale do Anhangabaú', no Centro de SP. Rodrigo Rodrigues/G1 Em Recife, não há gradis para ordenar o deslocamento dos foliões nos principais polos. Segundo o Centro de Operações da Prefeitura (COP), são montadas 22 barreiras apenas nos acessos ao Marco Zero pelas pontes, para controlar o comércio autorizado e impedir a entrada de recipientes de vidro. Dentro da área do evento, não há restrições físicas à circulação. Em Belo Horizonte, os gradis são usados de forma pontual, principalmente para proteger jardins, monumentos e prédios públicos, sem a criação de corredores fechados para a circulação de pessoas. Modelos semelhantes são adotados em Salvador, onde o controle se concentra nos acessos e no entorno dos circuitos, sem confinamento contínuo do público ao longo dos trajetos dos blocos. Já no Rio, os únicos lugares que com algum tipo de controle ficam nos circuitos dos megablocos. Há revista, mas os gradis ficam nas ruas de entrada. Os desfilem acontecem em avenidas amplas e sem gradis controlando o trajeto. Sem saída Para o arquiteto e urbanista Igor Guatelli, professor da FAU-Mackenzie e pesquisador associado da ENSA Paris-La Villette, os gradis usados como solução de segurança acabam funcionando como dispositivos de contenção, que reduzem as possibilidades de circulação e saída. Segundo ele, mesmo quando previstos nos planos oficiais de segurança, os gradis tendem a piorar a situação em momentos de tensão, porque reduzem a fluidez do público e criam novos riscos, em vez de resolvê-los. “Esses gradis são obstáculos. Ao determinar por onde a população deve sair, eles inviabilizam outras possibilidades”, diz. “Todo dispositivo que pré-determina saídas bloqueia outras formas da multidão se disseminar. Você cria um túnel, um corredor, e não tem para onde ir. Aí as pessoas entram em desespero." Ele ressalta ainda que os gradis metálicos são dispositivos ultrapassados, já tendo sido usados como armas e associados a tragédias. Para ele, existem alternativas mais flexíveis, mas mesmo assim o problema central permanece. "A gente sabe que hoje existem alguns tipos de obstáculos que são flexíveis, que deformam, que as pessoas podem passar por cima, que são feitos de plástico.” LEIA MAIS: 'Não dá para ter 1,5 milhão de pessoas na Consolação', diz Tarcísio após tumultos no pré-carnaval de SP Superlotação em bloco com Calvin Harris em SP provoca tumulto, foliões passam mal e PM intensifica efetivo Após ser presa por elo com líder do PCC, musa da Gaviões diz que retorno ao Sambódromo é 'renascimento' “Esses gradis metálicos, além de tudo, são dispositivos ultrapassados. Já foram usados como arma e poderiam ter causado uma tragédia muito maior", conclui. Ainda segundo o professor, o caos em grandes eventos não é apenas um problema de gestão, mas parte de uma estratégia que transforma o espaço público em território controlado, disciplinado e progressivamente privatizado. Neste contexto, grandes eventos no espaço público — como o carnaval — passam a ser tratados a partir da "suspeita do caos, onde a multidão é vista como ameaça, algo a ser disciplinado e domesticado." “Essa multidão é sempre vista como uma ameaça à ordem, à sociedade, e ela precisa ser contida, disciplinada, domesticada. Para você inviabilizar a ideia de espaço público, é preciso associá-lo ao caos, à desordem, ao tumulto, ao imprevisível.” Mudança de endereço A repetição de episódios em diferentes regiões levanta a dúvida se mudar o local dos megablocos resolveria o problema. Para os especialistas, não necessariamente. Em 2023, o bloco comandado pela cantora Pabllo Vittar foi encerrado quase uma hora antes do horário previsto por recomendação de segurança. Na época, a PM afirmou que a orientação teve o objetivo de resguardar a segurança da população devido à alta concentração de pessoas em um só local. “A sensação de tumulto não vai desaparecer só mudando o endereço”, diz a professora Mariana Aldrigui. “O que todos os especialistas em gestão de multidões apontam é que limitar o espaço e impedir saídas laterais é o que agrava a situação.” Ela destaca que São Paulo tem experiência em eventos de grande porte e tecnologia disponível para evitar superlotação. “Durante a pandemia, a cidade usou dados de telefonia para medir aglomeração. Esse contrato existe. Dá para trabalhar com números reais”, afirma. “O que parece é que os especialistas em segurança de multidões não estão sentados na mesma mesa de planejamento.” Pabllo Vittar como Jessie de Toy Story em bloco neste domingo (19) de Carnaval em São Paulo Ronaldo Silva/Photopress/Estadão Conteúdo Segundo Marcelo Vilela de Almeida, professor do curso de Lazer e Turismo da USP, os episódios indicam falhas na capacidade do poder público de planejar e gerenciar eventos de grande porte, reforçando a necessidade de rever estratégias e priorizar o interesse coletivo. “O carnaval virou um grande negócio, orientado pelo lucro, e isso acaba colocando em risco a integridade física de quem está na rua. O que se viu expõe a dificuldade do poder público em gerir um evento que saiu completamente do controle”, afirmou o especialista. Na segunda-feira (9), o prefeito Ricardo Nunes classificou o pré-carnaval como "um sucesso" mesmo diante dos problemas registrados. Ao falar sobre a superlotação e o atendimento dos feridos durante o bloco Skol, o prefeito disse que "nenhum caso foi considerado muito grave". "Em grandes eventos, como foi o caso da Ivete Sangalo [ocorrido no sábado, 7], sempre fazemos avaliações para melhorar", disse ele. Apesar disso, na mesma segunda a prefeitura afirmou que a gestão vai reforçar o plano de contingência do carnaval de rua no próximo fim de semana. Entre as medidas anunciadas estão a ampliação das saídas para o público e a presença de um agente da prefeitura dentro de cada trio elétrico dos megablocos. Segundo a prefeitura, agentes vão monitorar os desfiles, intervir em caso de risco e ajustar horários para evitar problemas como os do pré-carnaval. O plano também prevê mais saídas em grandes circuitos, como o do Ibirapuera, e o reposicionamento de postos de saúde para agilizar o atendimento aos foliões. Megabloco da cantora Pabllo Vittar levou multidão ao Ibirapuera, na Zona Sul de SP Fábio Tito/g1 O que dizem SSP e prefeitura Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que o esquema especial do pré-carnaval foi alinhado com a Prefeitura e outros órgãos, permitindo respostas rápidas diante do aumento do público. Segundo a pasta, a Polícia Militar intensificou o policiamento na Consolação para conter focos de tumulto e organizar a circulação. A SSP informou que não houve ocorrências graves e que mais de 20 pessoas foram presas por furtos e roubos, com a recuperação de 30 celulares. A operação contou com mais de 5 mil policiais por dia, drones, câmeras do sistema Muralha Paulista e uma Sala de Gerenciamento de Incidentes no Copom. Já a Prefeitura de São Paulo afirmou que a Praça Roosevelt tem o perímetro isolado há cinco anos durante o carnaval, por funcionar como base operacional do Circuito da Consolação. Segundo a administração municipal, o local apresenta restrições estruturais e riscos à segurança, como desníveis e estruturas metálicas, e foi classificado como Zona de Atenção Especial por portaria publicada em janeiro de 2026.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/carnaval/2026/noticia/2026/02/13/entre-grades-uso-de-gradis-para-revista-e-seguranca-de-folioes-no-carnaval-de-sp-aumenta-risco-e-precisa-ser-revisto-dizem-especialistas.ghtml


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