Após parto traumático, enfermeira da Unicamp cria simulação realista para treinar profissionais da saúde a comunicarem notícias difíceis

  • 31/01/2026
(Foto: Reprodução)
A enfermeira Camila Cazissi, da Unicamp, com o filho Arthur. Arquivo pessoal Em 2018, a enfermeira pediátrica Camila Cazissi aguardava ansiosa o momento de conhecer o rosto do seu primeiro filho. Nem tudo saiu como o esperado: Arthur nasceu prematuro e precisou ficar 10 dias internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). O menino foi liberado depois da internção com a saúde restabelecida, mas a forma que a enfermeira recebeu a notícia da internação a marcou de forma permanente. Cazissi conta que, sem dizer seu nome ou da criança e sem empatia, a equipe médica só lhe deu uma informação: "Mãezinha, ele não nasceu nada bem. A gente vai descer com ele para UTI". "Esse momento foi bem traumático para mim. Foi muito impactante a forma como me trouxeram a notícia", relembra. 🩺 A experiência transformou a maneira como a enfermeira enxergava a comunicação com famílias em momentos críticos e, seis anos depois, motivou o tema de sua tese de doutorado, defendida em junho de 2025. A pesquisa resultou na validação de um caso clínico e na criação de um treinamento em ambiente que simula uma UTI, com atores e um boneco, para capacitar profissionais de enfermagem a comunicar notícias difíceis de forma mais empática e estruturada. 📱 Baixe o app do g1 para ver notícias da região de Campinas em tempo real e de graça Veja os vídeos que estão em alta no g1 O que são notícias difíceis? A enfermeira trabalha na UTI pediátrica do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp desde 2011. A partir de sua vivência no trabalho e no doutorado, Cazissi percebeu que vários profissionais acreditavam que “notícia difícil” era sinônimo de comunicação de um óbito. Porém, segundo ela, situações rotineiras — como informar a necessidade de um acesso venoso, uma intercorrência inesperada ou até uma alta hospitalar — também podem ser vividas como difíceis pelas famílias. Cazissi conta que o treinamento foi criado para ampliar o entendimento do que constitui uma notícia difícil e encorajar toda a equipe a se reconhecer como responsável pela comunicação, não apenas médicos - e espera que, assim, outras pessoas não vivam a mesma angústia que ela viveu seis anos antes. "A intenção é que a gente melhore a nossa assistência, nossa qualidade enquanto profissional de saúde, e que a gente consiga realmente que essas famílias tenham vivências muito melhores e sejam acolhidas e não se não fiquem ali sozinhas. E que os profissionais saibam também como agir, e como acolher as emoções", explica. Como o treinamento foi desenvolvido? Imagem de arquivo do treinamento para a comunicação de notícias difíceis, na Unicamp. Acervo Pessoal A enfermeira elaborou e validou um caso clínico realístico a partir de revisão da literatura sobre UTIs pediátricas e o protocolo de comunicação SPIKES, amplamente utilizado na área da saúde. A validação envolveu 11 enfermeiros de todas as regiões do Brasil e o estudo foi publicado na revista Acta Paul Enfermagem. O caso clínico criado retrata o atendimento de um bebê de 2 meses com bronquiolite que evolui para intubação — situação que exige comunicação sensível com pais que aguardam informações fora da UTI. Com o caso validado, Camila criou um treinamento dividido em duas partes: Videoaulas sobre notícias difíceis, baseadas na Teoria da Aprendizagem Significativa Simulação clínica presencial, com cenário realístico e atores, seguida de uma reunião em que os profissionais podem refletir sobre seu desempenho A simulação contou com a presença de 30 profissionais de enfermagem da UTI pediátrica do HC da Unicamp, que participaram de forma voluntária por meio de inscrição prévia online. Imagem de arquivo do treinamento para a comunicação de notícias difíceis, na Unicamp. Acervo Pessoal Depois do treinamento, Camila afirma que os participantes reconheceram que não compreendiam completamente o conceito de “notícia difícil” antes da capacitação. Eles também passaram a perceber que técnicos e enfermeiros têm papel fundamental na comunicação com as famílias. "Eles conseguiram problematizar algumas relações de trabalho, em relação ao papel do técnico de enfermagem e do enfermeiro enquanto mensageiros da notícia. Eles conseguiram se colocar como profissionais que fazem parte desse momento como responsáveis de dar a notícia difícil", conta a enfermeira. O treinamento foi direcionado a profissionais da enfermagem da UTI Pediátrica do HC mas, segundo Cazissi, pode ser aplicado em cenários distintos. "A intenção é que isso é alcance outros profissionais também, com diferentes tipos de casos clínicos que a gente pode colocar na simulação. E um deles poderia perfeitamente ser um caso parecido com o meu", diz. O que é o protocolo SPIKES? O protocolo SPIKES é uma ferramenta metodológica desenhada para guiar profissionais de saúde na tarefa de comunicar notícias difíceis. Ele funciona como um roteiro estruturado em seis etapas, com o objetivo de organizar a conversa para que ela seja clara, empática e respeitosa. Camila explica que o protocolo, apesar de usado com frequência, nem sempre é aplicado de forma consistente, especialmente em UTIs pediátricas. Para ela, parte do desafio estava no entendimento restrito de quando aplicá-lo: muitos profissionais só recorrem ao método em situações gravíssimas e ignoram seu potencial para melhorar diálogos cotidianos. O SPIKES organiza a conversa nas seguintes etapas, de acordo com o Ministério da Saúde: Planejar a entrevista: buscar ambiente com privacidade, informar sobre restrições de tempo ou interrupções que possam ser inevitáveis e envolver pessoas importantes, se esse for o desejo do paciente. Avaliar a percepção do paciente: procurar saber como o paciente percebe a situação médica, o que já foi dito sobre o quadro clínico, se tem expectativas não realistas do tratamento e corrigir desinformações. Avaliar o desejo de saber do paciente: entender se o paciente deseja informações detalhadas sobre o diagnóstico, o prognóstico e os pormenores dos tratamentos ou se quer ir pedindo informações gradativamente, além de se oferecer para responder qualquer pergunta ou falar com familiares ou amigos. Transmitir a notícia e as informações: anunciar com delicadeza que más notícias estão por vir, dar tempo ao paciente para escutá-las, evitar termos técnicos e informar aos poucos. Acolher as emoções: favorecer a expressão dos pacientes e familiares, acolher, dar tempo para se acalmarem, expressar solidariedade e validar seus sentimentos e pensamentos. Resumir e traçar estratégias: resumir as principais questões abordadas e traçar uma estratégia ou um plano de tratamento realista junto aos pacientes. Durante o treinamento, os profissionais relataram que a simulação os ajudou a desmistificar o uso do SPIKES e perceber que ele é útil para qualquer comunicação sensível — e não apenas para situações de fim de vida. Mãezinha, ele não nasceu nada bem' Quando Cazissi completou 33 semanas e três dias de gestação, a bolsa amniótica rompeu e a enfermeira entrou em trabalho de parto prematuramente. Após dez horas, Arthur nasceu. "No momento que ele nasceu, ele não respirou e não chorou", relata. Sem ver o rosto do bebê, Camila assistiu à equipe médica reanimando Arthur na sala de parto e o levando para a UTI em seguida. "Mãezinha, ele não nasceu nada bem. A gente vai descer com ele para a UTI", disse a equipe, segundo Cazissi. ➡️ Ela relata que, naquele momento, a forma como os profissionais deram a notícia fez com que imaginasse vários cenários mais graves que a realidade, o que a deixou angustiada. "Eu realmente me senti bastante sozinha e desamparada em relação a tudo o que tinha acontecido", afirma. Após os 10 dias de internação, Arthur foi liberado com saúde e sem qualquer sequela. Entretanto, a sensação de "isso não deveria ter acontecido comigo" e "eu gostaria que tivesse sido diferente" não acabou com a alta no hospital. "A prioridade era realmente socorrer o Arthur. Mas a médica poderia ter chegado próximo [de mim]. Ela sabia o meu nome, então ela poderia ter falado: 'Olha, Camila, aconteceu isso, a gente fez isso, a gente vai descer com ele para a UTI e lá realmente ele vai receber um suporte, e assim que possível você vai poder descer para poder conhecer e ver o Arthur'", avalia. *Estagiária sob supervisão de Yasmin Castro e Bárbara Camilotti. VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias da região na página do g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/01/31/apos-parto-traumatico-enfermeira-da-unicamp-cria-simulacao-realista-para-treinar-profissionais-da-saude-a-comunicarem-noticias-dificeis.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Para Falar conosco ou Anunciar 19 994319628

Anunciantes